• José Góis

A Transformação Digital e o futuro do trabalho

Qual é impacto da transformação digital no mercado de trabalho? Quais as funções que tenderão a desaparecer e quais aquelas que terão um aumento de procura?


À medida que a transformação digital vai sendo implementada nas empresas, integrando os avanços tecnológicos que cada vez mais mudam a fronteira entre as tarefas de trabalho realizadas pelos seres humanos e as realizadas por máquinas e algoritmos, o mercado de trabalho como consequência também sofre transformações substanciais.


Essas transformações poderão conduzir a uma nova era de trabalho que gera uma melhor qualidade de vida para todos, mas por outro lado, pode aumentar o risco de falta de competências dos trabalhadores, aumentando a desigualdade de oportunidades de emprego.

À medida que a transformação digital avança, as empresas procuram aproveitar as novas tecnologias para atingir níveis mais elevados de eficiência de produção e consumo, expandir-se para novos mercados e competir com novos produtos para uma base global de consumidores composta cada vez mais por nativos digitais.

No entanto, a fim de aproveitar o potencial da transformação digital, os líderes empresariais terão cada vez mais de criar estratégias abrangentes de mão de obra qualificada, de forma a melhor enfrentarem os desafios que esta nova era de mudança e inovação constante exige.

O último relatório "The Future of Jobs" publicado pelo World Economic Forum, conclui que, à medida que as transformações da mão de obra aceleram, a janela de oportunidade para uma gestão proativa desta mudança está a fechar-se rapidamente e as empresas, o governo e os trabalhadores têm de planear e implementar proativamente uma nova visão para o mercado de trabalho global. As principais conclusões do relatório incluem:



Condutores de mudança


A internet móvel de alta velocidade, a inteligência artificial (AI), a adoção generalizada de grandes volumes de dados (Big Data) e a tecnologia em nuvem (Cloud), serão os principais condutores que vão impactar positivamente o crescimento dos negócios. Em conjunto com uma série de tendências socio-económicas que criarão novas oportunidades de negócio, como a difusão de novas tecnologias, a expansão da educação e da classe média, em especial nas economias em desenvolvimento.


Adoção acelerada da tecnologia


Até 2022, 85% das empresas inquiridas no estudo que gerou o relatório, afirmam que vão expandir a adoção de tecnologias como a internet das coisas (IoT) e a presença nos mercados via internet e web, aumentando uso extensivo da computação em nuvem (Cloud). Outras tecnologias como o Machine Learning, a Realidade Aumentada e a Realidade Virtual serão também alvo de investimentos consideráveis.

Tendências na robotização


Embora as intenções de utilização estimada para robôs humanóides pareçam ser um pouco mais limitadas para o período considerado na conceção deste relatório (2018-2022), uma gama alargada de tecnologias de robotização recentes ou em vias de serem comercializadas, como por exemplo robôs estacionários, robôs terrestres não humanóides e drones aéreos totalmente automatizados, além de algoritmos de aprendizagem automática e inteligência artificial, estão a atrair um interesse significativo.



Alteração geográfica das cadeias de produção, distribuição e valor


Até 2022, 59% dos empregadores inquiridos neste relatório esperam modificar significativamente a forma como produzem e distribuem os seus produtos, alterando a composição da sua cadeia de valor e quase metade espera modificar a base geográfica das suas operações.


Como fatores determinantes na tomada de decisão para a criação de empregos, as empresas darão prioridade à disponibilidade de talento local qualificado, com 74% dos inquiridos a considerarem este fator como o principal. Em contrapartida, 64% das empresas citam os custos do trabalho como a sua principal preocupação.


Uma série de fatores relevantes adicionais , tais como a flexibilidade das leis laborais locais, os efeitos de aglomeração da indústria ou a proximidade de matérias-primas, foram considerados de menor importância.

Mudança dos perfis de emprego


Quase 50% das empresas esperam que a automação conduza a alguma redução da sua força de trabalho a tempo inteiro até 2022, considerando os perfis de emprego da sua base de trabalho atual.


No entanto, 38% das empresas inquiridas esperam alargar a sua força de trabalho em novas funções como consequência do aumento de produtividade, sendo que mais de um quarto esperam que a automação conduza à criação de novas funções nas suas empresas.


Além disso, as empresas estão preparadas para expandir o uso de outsourcing para a execução de trabalho especializado, com muitos dos inquiridos a destacar a sua intenção de envolver os trabalhadores de uma forma mais flexível, através de trabalho remoto e descentralização de operações.



Uma nova fronteira entre as humanos e máquinas em relação às tarefas existentes


As empresas esperam uma mudança significativa na fronteira entre humanos e máquinas no que diz respeito às tarefas de trabalho existentes.


Em 2018, uma média de 71% do total de horas de trabalho nas 12 indústrias abrangidas pelo relatório eram realizadas por humanos, contra 29% pelas máquinas. Até 2022, esta média deverá mudar para 58% de horas de trabalho realizadas por humanos e 42% por máquinas.


Em 2018, em termos de horas de trabalho totais, nenhuma tarefa era predominantemente realizada por uma máquina ou um algoritmo. Até 2022, prevê-se que este quadro mude um pouco, com as máquinas e algoritmos a executarem em média 57% de tarefas específicas, como por exemplo tarefas de processamento e pesquisa de dados.


Mesmo as tarefas de trabalho que até agora se mantiveram esmagadoramente humanas, como por exemplo tarefas de comunicação e interação (23%), coordenação, desenvolvimento, gestão e aconselhamento (20%), bem como o raciocínio e a tomada de decisão (18%), começarão a ser automatizadas (30%, 29% e 27%, respetivamente).



Uma perspetiva positiva em termos de criação líquida de emprego


No entanto as novas tarefas e empregos que potencialmente serão criados com a implementação das tecnologias motoras da transformação digital, poderão compensar a diminuição dos postos de trabalho afetados.


Em todas as indústrias, até 2022, o crescimento das profissões emergentes deverá aumentar a sua quota de emprego de 16% para 27% da base total de trabalhadores nas empresas inquiridas, enquanto o peso do emprego relativo às funções em declínio deverá diminuir de 31% para 21%.

Cerca de metade das funções permanecerá estável no período até 2022. Dentro do conjunto de empresas inquiridas, que representam mais de 15 milhões de trabalhadores no total, as estimativas sugerem uma diminuição de 980 mil postos de trabalho e um ganho de 1,74 milhões de novos postos de trabalho.

Extrapolando estas tendências, o estudo faz uma estimativa de que até 2022, cerca de 75 milhões de postos de trabalho possam ser deslocados por uma mudança na divisão de mão de obra entre humanos e máquinas, enquanto 133 milhões de novas funções mais adaptadas à nova divisão de trabalho entre humanos, máquinas e algoritmos poderão ser criadas.

Embora estas estimativas estejam assentes em pressupostos que devem ser considerados com alguma cautela, são úteis para destacar os tipos de estratégias de adaptação que devem ser implementadas para facilitar a transição da mão de obra para o novo mundo do trabalho.


Estas estratégias nas transformações da mão de obra têm duas frentes paralelas e interligadas e interligadas entre si: Por um lado o declínio em larga escala de algumas funções em que as tarefas que as compõem serão automatizadas ou tornar-se-ão redundantes, e por outro o crescimento substancial de novos produtos e serviços gerados pela adoção de novas tecnologia.



Funções com aumento de procura


Entre as funções atuais que se preparam para experimentar uma procura crescente no período até 2022 estão Analistas e Cientistas de Dados, Desenvolvedores de Software e Aplicações, funções ligadas ao e-commerce e especialistas em Redes Sociais, todas elas baseadas e potenciadas pelo uso da tecnologia.


Espera-se ainda o crescimento de outras funçõees que alavancam competências distintamente "humanas", como as funções de Atendimento ao Cliente, Profissionais de Vendas e Marketing, Formação e Desenvolvimento de Pessoas e Cultura, especialistas em Desenvolvimento Organizacional, bem como Gestores de Inovação.


Além disso, o estudo evidencia a potencial aceleração da procura por uma variedade de novas funções especializadas relacionadas com as novas tecnologias, como a IA, Machine Learning, Big Data, Especialistas em Automação de Processos, Analistas de Segurança da Informação, Designers de Experiência de Utilizador e Interação Humano-Máquina, Engenheiros de Robótica e Especialistas em Blockchain.


Crescente instabilidade das competências


Com a vaga de novas tecnologias, as tendências que impactam os modelos de negócio e a cisão do trabalho entre humanos e máquinas, transformando os perfis de emprego atuais, a grande maioria dos empregadores inquiridos para o relatório esperam que, até 2022, as competências necessárias para a maioria dos postos de trabalho mude significativamente, considerando uma mudança em cerca de 42% nas competências de mão de obra necessárias.

O imperativo da requalificação


Até 2022, pelo menos 54% de todos os trabalhadores exigirão uma requalificação das suas competências. Destes, estima-se que cerca de 35% necessitem de formação adicional até seis meses, 9% exigirão requalificação com duração de 6 a 12 meses, enquanto 10% exigirão formação adicional de competências superiores a um ano. As competências em destaque até 2022 incluem o pensamento analítico e a inovação, bem como estratégias ativas de aprendizagem.

A importância acentuada de competências como a conceção e a programação tecnológicas evidenciam a crescente procura de várias formas de competência tecnológica. A proficiência em novas tecnologias é apenas uma parte da equação de competências, no entanto competências "humanas" como a criatividade, a originalidade, a iniciativa, o pensamento crítico, a persuasão e a negociação também irão manter ou aumentar o seu valor, assim como a atenção ao detalhe, a resiliência, a flexibilidade e a resolução de problemas complexos. A Inteligência emocional, liderança e influência social também passam a ter um aumento na procura.


Estratégias para colmatar a lacuna de competências


As empresas destacam três estratégias para gerir as lacunas de competências geradas pela adoção de novas tecnologias.


Esperam contratar novos colaboradores que já possuam as competências relevantes para as novas tecnologias, automatizar completamente as tarefas suscetíveis de serem automatizadas e reconverter os empregados existentes.


A probabilidade de contratar novos quadros permanentes com competências relevantes é quase o dobro da probabilidade de despedimentos de pessoal com atrasos na adoção das novas competências.


No entanto, quase um quarto das empresas estão indecisas ou pouco propensas a prosseguir com a reconversão dos trabalhadores existentes, sendo que dois terços esperam que os trabalhadores se adaptem e adquiram as competências no decurso da mudança de posto de trabalho.


Cerca de dois terços são suscetíveis de recorrer outsourcing, pessoal temporário e freelancers para colmatar as suas lacunas de competências.


Insuficiente requalificação e upskilling


Os empregadores indicam que darão prioridade e concentrarão os seus esforços na requalificação e upskilling dos colaboradores que desempenham atualmente funções de alto valor, de forma de reforçar a capacidade estratégica da sua empresa.


Além disso, 41% dos empregadores concentrarão os seus esforços na requalificação de trabalhadores desempenho elevado, enquanto 33% declarou que daria prioridade aos trabalhadores que estão risco, por as suas funções serem as mais afetadas pela inovação tecnológica.


Como conclusão do relatório


As novas tecnologias poderão impulsionar o crescimento do negócio, a criação de emprego e a procura de competências especializadas, mas também poderão eliminar funções quando determinadas tarefas se tornam obsoletas ou automatizadas.


As lacunas de competências, tanto dos trabalhadores como da liderança das organizações, poderão acelerar as tendências para a automação em alguns casos, mas também poderão colocar barreiras à adoção de novas tecnologias, impedindo o crescimento do negócio.

O relatório também sugere a necessidade de uma estratégia abrangente, uma abordagem em que as empresas utilizem a automatização de algumas tarefas para complementar e melhorar os pontos fortes das mão de obra humana, permitindo que os colaboradores atinjam o seu pleno potencial.


Em vez de se concentrarem estritamente na redução de custos de mão de obra com a automação, uma estratégia de desenvolvimento deverá ter em consideração um horizonte mais amplo de criação de valor, complementando as atividades humanas com a tecnologia, libertando os trabalhadores da necessidade de executar tarefas rotineiras e repetitivas, dando lugar a uma maior utilização os seus talentos humanos distintos.

No entanto, para desbloquear esta perspetiva mais positiva, os trabalhadores terão também a responsabilidade procurar ter as competências adequadas que lhes permitam prosperar no local de trabalho do futuro, continuando a investir no seu desenvolvimento pessoal e a apostar na sua própria formação ao longo da vida.



Criar sistemas de aprendizagem ao longo da vida, investir no capital humano e colaborar com outras partes interessadas na estratégia da mão de obra deverão ser imperativos fundamentais e críticos para o crescimento a médio e longo prazo das empresas, dando também um contributo importante para a estabilidade social.

Será também necessária uma mentalidade de aprendizagem continua por parte dos trabalhadores, à medida que abandonam as tarefas rotineiras e os limites dos empregos de hoje para o novo e imprevisível mundo do trabalho futuro.


Por último, os decisores políticos, os reguladores e os educadores terão de desempenhar um papel fundamental na ajuda dos trabalhadores impactados, criando condições para uma reconversão ágil na aquisição de novas competências, investindo fortemente no desenvolvimento de novos formadores e modelos de formação, implementando melhorias contínuas nos sistemas de educação e formação, bem como atualizando as políticas laborais para dar resposta ao impacto da transformação digital.


Fonte: World Economic Forum

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